O aumento alarmante de afastamentos do trabalho por ludopatia, ou vício em jogos, vem chamando a atenção das autoridades e especialistas da saúde mental no Brasil. Dados recentes do g1, com informações da Previdência Social, revelam que, até agosto de 2026, foram registrados 377 casos, um número que supera em muito os 312 afastamentos contabilizados em todo o ano de 2025. A situação financeira relacionada a esses afastamentos também é preocupante: o custo dos benefícios concedidos até agora alcança R$ 1,9 milhão, seis vezes mais que o registrado em 2023.
A crescente normalização das apostas online, que se tornaram populares após a sua legalização em 2018, é uma das principais razões por trás desse aumento. Até 2022, os casos de ludopatia eram raros, com uma média de apenas dez registros por ano. Entretanto, a situação começou a mudar drasticamente em 2023, ano em que as apostas se tornaram um fenômeno massivo. A Previdência Social reconhece que muitos casos não estão sendo contabilizados adequadamente, uma vez que os critérios de registro são limitados a trabalhadores que contribuem para o INSS e que se afastam por mais de 15 dias.
O impacto do vício em apostas se estende a outras áreas da saúde mental, como ansiedade e depressão. Especialistas alertam que esses distúrbios, que muitas vezes acompanham a ludopatia, são frequentemente categorizados sob códigos diferentes, dificultando uma compreensão completa do problema. A atual situação é vista como um dos maiores desafios da saúde mental no Brasil, com psiquiatras ressaltando que o vício em jogos funciona de maneira semelhante a dependências de substâncias, como álcool e drogas.
Histórias como a de Vitória Macedo, uma atendente de telemarketing que perdeu mais de R$ 30 mil em apostas, ilustram a gravidade da situação. Ela precisou se afastar do trabalho para tratar sua ludopatia e a depressão que a acompanhou. Seu relato, assim como o de muitos outros, revela a rapidez e a intensidade com que as apostas online podem destruir vidas. A velocidade das transações e a facilidade de acesso pelo celular tornam o jogo uma armadilha mortal.
O governo brasileiro, por sua vez, tenta enfrentar esse problema com uma medida provisória que proíbe as apostas. Contudo, a efetividade dessa decisão é debatida, com especialistas alertando que a mudança pode levar a uma migração para o mercado ilegal. Enquanto isso, a pressão sobre o Sistema Único de Saúde (SUS) cresce, já que a estrutura atual não está preparada para lidar com o aumento de casos de ludopatia e suas consequências.
Em um cenário onde a saúde pública e a segurança financeira estão em jogo, a questão das apostas online se revela mais do que uma questão de regulamentação: é um problema social que demanda uma abordagem abrangente, que inclua educação, apoio psicológico e um olhar atento à saúde mental da população. As apostas podem parecer inofensivas à primeira vista, mas, como demonstram os dados, o custo humano e financeiro desse vício é alarmante.



